domingo, 17 de maio de 2009

Stravinsky no Teatro Avenida


Semana passada fomos assistir à ópera Rake's Progress de Stravinsky no Teatro Avenida, num dia de gripe inacreditável. Linda montagem, com ótimos cantores: Evelyn Ramírez, Ana Laura Menéndez, Gustavo Gibert, Jeffrey Lentz. Cenário também inventivo, com recursos interessantes como um mapa de Londres servindo de índice dos descaminhos morais do jovem Rakewell e da impossibilidade de Anne Trulove de encontrá-lo. Com todas as vaidades da personagem, lembrando-nos do Dorian Gray, que Lentz interpretou recentemente. Mapa que trepidava mais à frente, no momento do jogo de cartas com o diabo.

É interessante como o texto da ópera, escrito por W. H. Auden e Chester Kallman, reencena uma variedade de questões das vanguardas. O jogo, a decadência moral, a loucura, a moralidade irônica, o artifício, são temas que percorrem os três atos, mesclados com surpreendentes soluções cênicas. Uma delas, a cena do leilão dos objetos fúteis que o casal Baba e Tom foram acumulando antes de falir. Nesse sentido, é pouco classicista como costumam apontar os críticos de Stravinsky. Se a música é menos exuberante, talvez seja para oferecer um contraponto aos afetos, como se ela mesma fosse a resposta moral "do trabalho" que o texto propõe ao final. 

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Jardim Japonês


Há uma visita guiada da prefeitura de Buenos Aires que propõe um trajeto Jorge Luis Borges. Passa por alguns dos lugares onde viveu, trabalhou ou que simplesmente percorria em suas caminhadas. O Jardim Zoológico é um deles, porque Borges gostava de tigres. O Jardim Japonês é outro. Lá ia com María Kodama para aprender sobre cultura japonesa, em cursos que existem ainda hoje. Talvez fizesse uma sessão de Shiatsu, meditasse. Nunca saberemos. Hoje fomos com a Sra. Simpson, que de fato se perguntava sobre a possibilidade de fazer "um Shiatsu". Não alimentamos as carpas do lago. Não ficamos muito, porque fazia frio.

La Cabrera


A crise econômica argentina e a inflação não esvaziaram os restaurantes à noite.  Talvez tenham tornado os populares mais populares. Mas é inevitável constatar a presença maior de turistas em alguns deles, sempre atentos aos guias atualizados. La Cabrera, que deve ter começado como uma parrilla comum - difícil dizer "comum" diante da qualidade das carnes e acompanhamentos - é quase um restaurante internacional. Não ouvimos espanhol ou talvez, para que os locais não se imaginem num lugar turístico, eles tenham sido deslocados para outra área, como no La Brigada. Apesar disso, agradável e com ótima comida: com pratos fartos para dividir e não pesar na conta. E incríveis mollejas inteiras. A foto é do guia Buenos Aires Restaurants.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Fundación F. J. Klemm


Federico Jorge Klemm, pela visita à fundação que hospeda uma parte de sua coleção de arte contemporânea e algumas de suas obras, devia ser um sujeito curioso. Nascido na República Tcheca, veio em 1948 para Buenos Aires, onde foi apresentador de TV, cineasta e cantor de ópera. Sua obra artística que começa próxima das vanguardas, se encaminhou em algum momento para algo que me faz lembrar dos quadrinhos de Conan, o bárbaro. A coleção da galeria, que fica perto da Florida (M. T. de Alvear 626), reúne telas de Lucio Fontana, Guillermo Kuitca, Marc Chagall, Picasso, Salvador Dalí, De Chirico, dentre outros. 

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Les Luthiers


Os Luthiers nos foram apresentados por Vero. É uma instituição do humor na Argentina já há quarenta anos. Misturam esquetes curtos, músicas próprias com letras cheias de trocadilhos e a utilização de instrumentos diferentes. Em Buenos Aires, lotam semanalmente o gigantesco teatro Gran Rex com seus 3300 lugares desde abril. Vai aqui um trecho de um espétaculo mais antigo. A temporada atual, que prolonga a do ano passado, intitulada Lutherapia, já está também no youtube.

La Zurda


Nada como emendar uma noite em claro com outra. Ontem fomos visitar o simpático apartamento de Davis e Naza em Ramos Mejía, próximo de onde Jorge Luis Borges afirmou ter visto o Aleph. Não foi para tanto. Mas o show da banda La Zurda no Santana's bar, com público cativo em pleno domingo, foi algo com que não contávamos. Mistura de rock, reggae e música folclórica do norte da Argentina. Genial, tanto mais porque o cd (foto acima) nem prometia tanto. Sugestão, claro, de Naza e seu irmão, fanáticos roqueiros. Com tempo, subiremos alguns vídeos, embora o youtube tenha já alguns.

domingo, 10 de maio de 2009

Noite em branco


Amerik, que se diz América, é uma boate grande de Buenos Aires (Gascón 1040), onde se mistura todo tipo de gente. No térreo há dois bares com bebida à vontade, um palco pequeno central e um palco no fundo um pouco maior. Tocam tecno e músicas de boate. Os palcos não estão unicamente reservados para shows, mas para qualquer um que queira subir. No andar de cima há dois corredores com sofás, de um lado o escuro, de outro um iluminado. No meio, dentro de uma sala transparente, tocam salsa e ritmos latinos. Há outro bar aí com mais bebida à vontade (nem sempre é aconselhável provar as batidas, que de boas só tem os nomes: "orgasmo de pitufo", "pantera rosa", "eletrik lemonade", etc). Chegamos lá às 3 ou três e meia, saímos 6:30. Depois fomos tomar café no MacDonald's, lotado de gente, lotado, lotado. Coisa mais interesante essa das pessoas não terem desistido dos espaços públicos e da vida urbana.

sábado, 9 de maio de 2009

Biblioteca Nacional


A Biblioteca Nacional não fica longe daqui. O prédio é bonito, com lida vista do porto e do rio. O acervo é enorme e as condições de pesquisa, bastante razoáveis se comparadas com as brasileiras. Por isso, as salas são mais freqüentadas e, com um dos elevadores quebrados, há mesmo filas pela manhã e início da tarde. Muitos estudantes ficam numa sala sem consulta ao acervo, tomando mate e lendo os livros que trazem. Com carteirinhas de "investigador", ficamos (Livia sobretudo) paparicados pelos bibliotecários, que na tentativa de tornarem nossa vida melhor, com salas especiais e possibilidade de pedir mais livros, vão complicando tudo: o xerox passa a ficar longe, há-de se subir uma rampa toda vez que os livros chegam. A carteirinha fica retida, proibindo nossas saídas bruscas da área reservada. Por aí vai. Isso, fora pequenos incidentes sempre curiosos, difíceis de serem relatados.

Las llaves de abajo de Daniel Burman


A publicidade da primeira peça de Daniel Burman está em boa parte dos jornais argentinos, cheia de elogios. Seu filme Abraço partido era, de fato, interessante. Direito de família, ainda sobre questões familiares, um pouco menos. Ainda assim, fomos à Ciudad Cultural Konex ontem, em Abasto, para ver a estréia de Burman no teatro. Lugar interessante, uma antiga fábrica desativada e depósito de óleo, construída nos anos 1920 e liquidada pelos sucessivos governos Menem.

A peça conta a história de um filho quarentão que retorna para visitar sua mãe, ou melhor, três mães - multiplicadas em três ótimas personagens. Elas dão vazão a um diálogo ininterrupto do filho, que procura radiografias de sua coluna vertebral num grande baú de brinquedos. A cada radiografia, uma lembrança e uma frustração, retomadas com certo humor surrealista. Pena que a peça dure pouco, escassos 50 minutos insuficientes para dar profundidade ao esquete. Quando Gabriela, mulher do homem/ rapaz infantilizado diante das lembraças de criança, chama-o pelo interfone, talvez fosse o momento de vislumbrar essa outra relação, trancada pelas chaves que as mães carregam ciosas, e que ele desiste de pegar para ir embora.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Malba, duas exposições


Há duas belas e pequenas exposições no Malba até 25 de maio. A primeira delas, da coleção pictórica do Banco Nacional do México. Reúne obras de artistas mexicanos, das vanguardas em diante: José Miguel Covarrubias, Frida Kahlo, Diego Rivera, Manuel Rodríguez Lozano, David Alfaro Siquieros, Rufino Tamayo, Ángel Zárraga, dentre outros. É a oportunidade, já proporcionada pela visita às coleções do Malba, de confrontar as diversas vanguardas latino-americanas. De vê-las para além do que se pretendem nacionalistas, como movimentos estéticos coetâneos e relativamente semelhantes: em suas representações do negro, do nacional, da pobreza. A outra exposição, de belas fotografias (e títulos nem sempre condizentes) de Manuel Álvarez Bravo. La hija de los danzantes (acima) de 1933, era uma delas.

La Brigada e Brasserie Berry


Ontem quando entramos com Catalão no La Brigada (Estados Unidos 465), com toda a pinta de restaurante para turistas, bem imaginamos que não seria uma noite como as outras. Fomos recepcionados por um garçon um tanto turrão, que fazia questão de falar inglês, havia camisetas de futebol pela parede, a carne foi cortada habilmente apenas com uma colher, a música era brega. A Parrilla tradicional se mostrou, todavia, com todas as suas previsibilidades. Hoje, para variar, resolvemos almoçar na charmosa Brasserie Berry (Tucumán 775), restaurante francês popular no centro da cidade. Pratos simples, mas fora do espírito bife com fritas, bife com salada, ravioles.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Anetta e Antares


Já era hora de começar a juntar nomes de restaurantes simpáticos, depois de brigar um pouco com os guias, os mapas, as recomendações. Uma delas nos levou a uma parilla apenas razoável, Don Julio (Guatemala 4691) em Palermo. Com a intuição, sem guias, tivemos mais sorte. Anetta é um restaurante italiano aberto em 2007 de pratos simples, preços honestos e lugar incrível, com mesas na rua e cadeiras Luis XIV negras. Fica na esquina da Ugarteche 3212, aqui do lado. Um pouco mais distante, a cervejaria Antares (Armenia 1447) é ótima pedida para o fim de tarde. Com seus oito tipos de cerveja artesanais, algumas fortes, retiradas de enormes tonéis, lembra a Baden Baden, mas com um cardápio melhor e música melhor (inclusive brasileira). 

domingo, 3 de maio de 2009

Puerto Madero, vídeo

Puerto Madero e Costanera Sur



Hoje à tarde, depois do museu, fomos com Elena - amiga de Livia - passear de bicicleta em Puerto Madero e Costanera Sur. Alugamos pagando barato nas Bicicletas Naranja. Passeio bonito, uma parte na zona mais policiada de Buenos Aires, com seus bares caros e prédios impressionantes e, alguns metros depois, na enorme feira popular que se estende pela costa perto da reserva florestal que barra a vista do Rio da Prata. Fiz várias fotos que gostei e alguns vídeos (com Elena e Livia nas bicis). Primeiro uma foto, que pode ser ampliada.

Museo de la ciudad


Livia gosta de visitas guiadas. Ontem consegui escapar de uma à Casa Rosada, que fazia parte dos festejos do mês de maio. Hoje, todavia, fomos ao Museo de la Ciudad de Buenos Aires, no bairro de San Telmo. Nos perdemos em meio aos ambulantes da rua Defensa, chegamos atrasados. Já estávamos indo embora, depois que constatamos que não havia quase nada para ver, quando a senhora da visita guiada nos chamou. Assim, aprendi bastante sobre os leques que os argentinos usavam no início do século passado. Diferentes materiais, nomes, gestos, todas essas frescuras de uma exposição que se intitulava, não sem razão, Cuando los porteños se daban aire.

La dengue se fue


A imprensa da Argentina é bem parecida com a do Brasil, embora mais discreta nos jornais em sua oposição ao governo, um pouco menos na TV. Essa é a impressão desses dias. Os escândalos como que se sucedem por uma espécie de conveniência política. Têm feito, por exemplo, um estardalhaço danado com o Fernando Lugo do Paraguai. Quase não cobriram as manifestações da CGT, favoráveis aos Kirchners. Com o caso da dengue, devem ter lido o editorial da Eliane Catanhêde da Folha de São Paulo e seu alarmismo. Pois bem, bastou surgir a Gripe A - e aqui se insiste na incapacidade do governo de controlar os eventuais casos que ainda nem apareceram - deixaram a dengue de lado. E sem usar Mitigal.

Os Sete Loucos


Ontem vimos a montagem do romance de Roberto Arlt chamado Los siete locos (1929) no moderníssimo Centro Cultural de la Cooperación (Corrientes, 1543). Estávamos desconfiados, não só por causa da experiência fadada de Titulares, mas porque o texto não foi originalmente escrito para a cena. A adaptação de Omar Aita é excelente: cenário mínimo, com uma ou outra cadeira, duas camas e luz, conservando a história que é percebida apenas através dos diálogos. Diálogos de loucos, aliás: Astrólogo (Julio Ordano), aparentemente o mais disparatado, que se revela aos poucos o ladrão que engana os outros; Ergueta (Marcelo Sánchez), um homem rico que, seguindo os caminhos do apóstolo Paulo, se desfez da fortuna e se casou com uma prostituta; Barsut (Darío Levy), apaixonado pela mulher de Erdosain, que denuncia o roubo deste na açucareira em que trabalham e, no fim, acaba tentando a vida de ator e o casamento com Greta Garbo; o Rufião Melancólico (Enrique Papatino), um cafetão, curioso para conhecer os planos de revolução projetados pelo Astrólogo e, finalmente, Remo Erdosain (Pablo Iemma), o personagem principal, inventor fracassado e angustiado, imaginando de todas as formas o modo como deve se tornar alguém. Trabalho magnífico e muito fiel ao texto, sarcástico apesar da possibilidade de redenção, denso e humorado, com ordens sociais e políticas estranhas, mas verossímeis.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Primeiro de maio


Dia de manifestações em frente à Casa Rosada e nas avenidas do entorno. A CGT, de manhã, discursou a favor da candidatura de Kirchner. Acompanhamos a passeata do Partido Obrero no comecinho da noite. Segundo os panfletos que distribuíam, começarão hoje as invasões das fábricas de forma mais massiva. Essa seria a única forma de fazer com que os capitalistas paguem a crise. Era uma das duas passeatas que saíam ao mesmo tempo, a outra era a do MST (Movimiento Socialista de los Trabajadores). Muita gente por todas as partes: além dos brasileiros entediados (e sem entender nada), fazendo fila para entrar no Tortoni; trabalhadores, filhos de trabalhadores batucando e se divertindo, estudantes, gente sentada nos bancos acompanhando e tomando mate.

Feira do livro de Buenos Aires


Ontem a Feira do livro de Buenos Aires abriu gratuitamente para visitas noturnas, de 20h30 até 01h da manhã. Estava cheio, embora com vias de circulação rápida e grande concentração apenas nos estandes da Planeta ou de livrarias maiores. Aqui e ali, uma sessão de autógrafo, um show de dança ou de música. Ficamos bem três horas. No fim, a impressão de que a feira é maior do que a quantidade de livros que traz. Livia foi com uma lista e mesmo alguns livros conhecidos de Saer e Bolaño não conseguimos encontrar; na verdade, a Seix Barral e a Alfaguara não compareceram e seus representantes levaram só lançamentos, best-sellers, auto-ajuda, literatura clássica e livros infantis. Às vezes, um achado como o da edição fac-similar da revista Contorno, editado pela Biblioteca Nacional. Mas vamos voltar.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Aburrido


A duas quadras daqui está o Museo de Arte Popular José Hernández (Av. del Libertador 2373), numa casa bonita com jardim interno. A página da internet é também uma beleza. Traz informações sobre as suas diversas coleções de artesanato popular: em vidro, madeira, metal, etc. Bem diagramada, há mesmo informações bibliográficas. Pois bem, sem que nos dissem na entrada ou constasse qualquer indicação no site, quase todo o museu está fechado. Restaram quatro salas no fundo absolutamente sem graça. Um visitante não resistiu; escreveu no livro de visitas a palavra do título: aburrido, chato, entediante.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Manchetes


Hoje, durante a encenação de Titulares (la voz del Pueblo), ficamos esperando, junto com um dos personagens, Jorge Luis Borges, representado, aliás, como um idiota, alguma coisa inteligente. Peça de Bernardo Carey dirigida por José María Paolantonio para o Teatro Presidente Alvear (Corrientes, 1669). Queriam produzir um espetáculo – com momentos emocionantes estilo "teatro de revista", como o que antecede a apresentação de um mural de David Alfaro Siqueiros, Ejercicio plástico (acima, não segundo a peça) – e, no fim, tudo saiu mal, apesar dos aplausos e de alguns "bravos" corajosos. O enredo pretendia narrar a vida de Natalio Botana, diretor e criador do jornal Crítica, um dos primeiros periódicos verdadeiramente populares na Argentina.

Passeio em Palermo Soho


Subindo para além da Avenida Santa Fé, fica a parte de Palermo que chamam aqui Palermo Soho, com suas ruas mais traqüilas e arborizadas, casas antigas e grande variedade de restaurantes. Bom para um passeio de bicicleta ou para sair à noite. Durante o dia, mesmo numa quarta-feira, a sensação de sábado. Tudo deverá mudar - quiçá não mude - com os prédios que estão aos poucos substituindo as casas antigas. Na foto, que pode ser ampliada, a que está em laranja é de 1903. 

Casa de pães


Nos primeiros dias de instalação em Palermo, com suas largas avenidas e escala desafiadora - tudo que é três quadras parece seis - achamos  vários comércios para a sobrevivência do mês: lavanderias, supermercados, rotisserias, papelarias, bancos. Cada um com sua história. Na lavanderia, levamos um cesto de roupas que viraram dois, porque a moça resolveu separar roupas coloridas e brancas (o que não prevíamos). No banco, aguardamos quarentas minutos e muitas assinaturas para converter travelers. Na papelaria, não nos quiseram vender envelopes pois não tinham troco em moedas. 

Mas o que procurávamos desde o início eram padarias de verdade, isto é, com pães em vez da variedade de docinhos que os argentinos comem de manhã. Hausbrot é uma cadeia de padarias há vinte anos. Ufa. (A foto acima é deles)

terça-feira, 28 de abril de 2009

Argentinos bem brasileiros


Fomos também à Fundación Centro de Estudos Brasileiros (Esmeralda y Paraguay) ver estréia imperdível de Naza, quase um brasileiro, e seu pandeiro. Ele faz parte de um grupo chamado "Carinhosos da Virginia", ou seja, Virginia Lee, a entusiasmada professora de música. Por lá, além do ensino de pandeiro, tamborim, violão, cavaquinho, percussão, etc., ensinam português, fazem palestras, têm uma biblioteca. Davis nos mandará em breve um registro desse momento, mas algo parecido ao que vimos pode ser visto aqui. Há suspeição no que digo, mas os argentinos são de fato o máximo, muitíssimo entusiasmados com essa nossa cultura que por vezes (e contraditoriamente) não sabe reconhecê-los.

ps. Finalmente, um trecho da animada apresentação está no link.

Museo de Arte Decorativo


Ontem passamos na frente do prédio pomposo da família Errázuriz, no caminho da inscrição na Biblioteca Nacional. Hoje, com um pouco mais de tempo, fomos lá para nos dividir com uma exposição estranha sobre telas em seda e sentidos esotéricos (cheia de senhoras de meia-idade). O Museo de Arte Decorativo, no entanto, é mais que isso. Atrás das telas, por vezes escondido um Greco como esse acima. No segundo andar do prédio, uma bela escultura de Zadkine, em meio a obras de Rodin, Carpeaux, Vernet, Taunay, tudo isso preservando parte do mobiliário familiar. Como se não bastasse, dia 6 começa uma exposição sobre a história da gravura. A ver.

Agenda provisória

28/04 Museo de Arte decorativo
29/04 Titulares (la voz del pueblo), peça de Bernado Carey: Corrientes 1669 (20h30)
30/04 Feira do livro
02/05 Visita guiada do Palacio del Gubierno (16h)  Los Siete Locos: Corrientes 1543 (22:00)
03/05 Museo de la Ciudad de Buenos Aires
07/05 Las Llaves del Abajo de Daniel Burman (Konex)
09/05 Les Luthiers: Gran Rex (21h)
12/05 Rake's progress de Stravinsky no Teatro Avenida
19/05 Joana d'Arc na fogueira, Honneger e Claudel: Teatro Coliseo

segunda-feira, 27 de abril de 2009

O Assaltante


Passeio por San Telmo (revendo El Establo - Defensa, 1463, onde há dois anos comemos, Rix, Fefê, Pablo e eu, uma parrila inesquecível), também pelo entorno de Constitución, com muita gente, camelôs e prostituição. Nada grave, apenas fomos ao Arte Cinema (Salta con Brasil) ver El Asaltante (2007), filme de Pablo Fendrik. Conto o enredo, simples, e magistralmente filmado, com a câmera muito próxima de Arturo Goetz (acima). Um homem de meia idade assalta duas escolas (situação a que está submetido qualquer comércio na Argentina, com a economia informal e os pagamentos em dinheiro). O senhor pacato se revela diretor ou funcionário de uma escola. Dúvidas: o assalto é uma compulsão ou decorrência da situação econômica argentina? O assaltante trabalha para si ou alimenta, com o assalto a outras escolas, a sua própria? Vejam, vejam se possível e nos contem!

Vedettíssima


A idéia de ir a um "teatro de revista" em Buenos Aires era antiga. Passeando em Mar del Plata ou em Carlos Paz, há alguns anos, ficávamos assustados com a quantidade de gente na frente dessas espécies de Moulin Rouge. De todos os tipos: velhos, senhoras, jovens, casais. Um equivalente nos pareciam ser os tais besteiróis cariocas, sempre tão tolos. Mas os cartazes com suas mulheres e homens semi-vestidos prometiam mais.

Ontem fomos com Davis e Naza. Para ver Vedettísima, com uma das vedetes mais antigas da Argentina: a tal Carmen Barbieri, grande elenco, todos conhecidos-desconhecidos (María Eugenia Ritó, Silvina Luna, Matías Alé) e direção de Santiago Bal. Isso no teatro mais antigo de Buenos Aires, o Teatro Liceo (de 1872 ou algo assim), que vale a visita embora, como tudo, com uma bela aura decadente. Custou caro, $80.

Com os ingressos mais baratos, no último andar, me arrependo (porque estava vazio atrás de nós) de não ter levado câmera fotográfica. Talvez o blog aumentasse suas visitas. Sessões de meio striptease, pouco sensuais, mas sem constrangimento. Danças de um erotismo curioso diante da multiplicação de silicones. Tudo mesclado (ou será o contrário?) com esquetes de humor tipo A praça é nossa, ou stand-up CQC, além da presença de Carmen, vedetíssima, com suas homenagens ao pai ator, um discurso sobre a superação da carreira, luvas de box, mágicas. Inesquecível.

Las Heras


O parque é bonito, tem seis mini-campos de futebol invejáveis e concorridos até noite alta. Fica a duas quadras e corta o nosso caminho ao metrô Bulnes, nos dias em que não temos moedas para o ônibus. Durante a manhã, é lugar de encontro e banheiro de uma infinidade de cachorros. 

domingo, 26 de abril de 2009

Mataderos 3

Dia 25 de abril. Primeira ida a uma ópera de câmara. Vimos a adaptação de El Matadero de E. Echeverría realizada por Marcelo Delgado (diretor) e Emilio García Wehbi (compositor) no Centro Cultural Ricardo Rojas (av. Corrientes). Dois protagonistas, uma bailarina (meio vaca, meio touro, meio homem, meio mulher) e coro com seis vozes. O texto originalmente sintetiza a disputa entre rosistas e unitários e a história do mito fundador da Argentina, do gaucho em oposição ao gringo, do bárbaro contra o civilizado. Montagem extremamente violenta, com direito a churrasquinho, muita poeira e velhinhas saindo no meio do espetáculo. Geniais os cantores principais, Pablo Travaglino (el Cajetilla) e sua incrível e inesperada voz de contra-tenor e Federico Figueroa (el Mazorquero) com sua voz bruta, de um rouco gritado, com cordas de violão partidas. O coro era de uma virtuosidade insuspeita: música feita com batidas no peito, de pé, de facas, de assobios e um e outro diapasão aqui e acolá para entradas malucas.

Mataderos 2 (vídeos)

Mataderos 1


Depois de ontem (Livia descreverá a peça), nada como uma viagem de uma hora de ônibus para visitar a Feira de Mataderos, na periferia de Buenos Aires. Comidas típicas (choripan, queijos de cabras falsos, doces estranhos), roupas e objetos típicos (mil cumbucas diferentes para tomar mate), danças típicas. Com sol, cheio de gente e cheiro de parrilla. Estamos no clima. 

À foto acima, dos próprios visitantes (isso talvez nos pareça mais autêntico, podiam ser contratados pela prefeitura) juntarei alguns vídeos depois.

sábado, 25 de abril de 2009

Coronel Diaz e Cabello


Já estabelecidos em Buenos Aires, eis aqui o link do simpático apartamento da Avenida Coronel Diaz perto da calle Cabello. O esquema todo foi sugestão do Mineiro.

Logo em baixo, perto perto, a heladeria Una altra volta. Tão chique, com sorvetes ótimos. Hoje, ficaram sem graça de não trocar o nosso dinheiro (em Buenos Aires faltam moedas para o ônibus).

Macro, Rosário


Num fim de tarde, fomos ao Macro: Museu de arte contemporânea de Rosário, com Miriam. Está num prédio que foi um antigo depósito de grãos, que embora não tenham função museográfica, foram coloridos para a cenografia exterior do museo. O museu evidencia o abandono e a gradativa, e atual, recuperação da região próxima ao rio, em cuja margem a cidade se estabeleceu. Num dos andares, havia uma mostra de vários fotógrafos. Julio Pantoja, um deles, fez fotos do norte da Argentina preocupado com o crescimento destruidor das plantações de soja. Menos interessado pela paisagem do que pelas pessoas, fotografou cada família resistente contra um pano branco, sem esconder a encenação, os outros que seguram o pano, o recorte que faz da realidade. Como se fosse um anti-Sebastião Salgado, é menos dramático, mais verdadeiro.

A fonte das utopias


Pouco tempo em Rosário: de 21 a 24 de abril de 2009. Idas ao Encontro de literatura comparada, almoços invariáveis na sofisticada e concorrida La Caprese (c. Santa Fé). Estadia no barulhento hostel Avanti, ao qual não retornaremos - de jeito nenhum. Passeios aqui e ali nas ruas planas, longas, cheias de bicicletas, com suas mesclas de edifícios históricos, praças e prédios comuns. Num desses passeios, a fonte das utopias fotografada de longe e em sépia. Livia gostou. Fica em cima, como um exergo do blog temporário.