
A publicidade da primeira peça de Daniel Burman está em boa parte dos jornais argentinos, cheia de elogios. Seu filme Abraço partido era, de fato, interessante. Direito de família, ainda sobre questões familiares, um pouco menos. Ainda assim, fomos à Ciudad Cultural Konex ontem, em Abasto, para ver a estréia de Burman no teatro. Lugar interessante, uma antiga fábrica desativada e depósito de óleo, construída nos anos 1920 e liquidada pelos sucessivos governos Menem.
A peça conta a história de um filho quarentão que retorna para visitar sua mãe, ou melhor, três mães - multiplicadas em três ótimas personagens. Elas dão vazão a um diálogo ininterrupto do filho, que procura radiografias de sua coluna vertebral num grande baú de brinquedos. A cada radiografia, uma lembrança e uma frustração, retomadas com certo humor surrealista. Pena que a peça dure pouco, escassos 50 minutos insuficientes para dar profundidade ao esquete. Quando Gabriela, mulher do homem/ rapaz infantilizado diante das lembraças de criança, chama-o pelo interfone, talvez fosse o momento de vislumbrar essa outra relação, trancada pelas chaves que as mães carregam ciosas, e que ele desiste de pegar para ir embora.