domingo, 17 de maio de 2009

Stravinsky no Teatro Avenida


Semana passada fomos assistir à ópera Rake's Progress de Stravinsky no Teatro Avenida, num dia de gripe inacreditável. Linda montagem, com ótimos cantores: Evelyn Ramírez, Ana Laura Menéndez, Gustavo Gibert, Jeffrey Lentz. Cenário também inventivo, com recursos interessantes como um mapa de Londres servindo de índice dos descaminhos morais do jovem Rakewell e da impossibilidade de Anne Trulove de encontrá-lo. Com todas as vaidades da personagem, lembrando-nos do Dorian Gray, que Lentz interpretou recentemente. Mapa que trepidava mais à frente, no momento do jogo de cartas com o diabo.

É interessante como o texto da ópera, escrito por W. H. Auden e Chester Kallman, reencena uma variedade de questões das vanguardas. O jogo, a decadência moral, a loucura, a moralidade irônica, o artifício, são temas que percorrem os três atos, mesclados com surpreendentes soluções cênicas. Uma delas, a cena do leilão dos objetos fúteis que o casal Baba e Tom foram acumulando antes de falir. Nesse sentido, é pouco classicista como costumam apontar os críticos de Stravinsky. Se a música é menos exuberante, talvez seja para oferecer um contraponto aos afetos, como se ela mesma fosse a resposta moral "do trabalho" que o texto propõe ao final.